domingo, 12 de setembro de 2010

Jornalismo 2.0 ou Noticiário Colaborativo: as besteiras que nos contam

Willian Bonner é publicitário de formação.

Leio muito sobre comunicação. Vejo muita coisa acontecendo e, a cada dia, me deparo com mais veículos tentando encontrar a fórmula perfeita do jornalismo colaborativo ou da cobertura jornalística pelo leitor. Arremedos de um jornalismo 2.0, ou participativo, espalham-se aos milhares.

O que acontece na verdade é bem mais sério e bem diferente do discurso apregoado pelos grupos de comunicação. Por jornalismo participativo, entendem a publicação de conteúdo dos leitores sem maior apuração ou crivos severos de crítica. Não se percebem marionetes da era da informação. Interesses, partidarismo, brincadeiras, caçadores de quinze minutos de fama e tantos outros personagens se proliferam na internet que mal damos conta de classificá-los.

A alavanca de impulso dos erros do jornalismo online, da circulação de notícias mal apuradas e mentirosas tem sido, corriqueiramente, a má compreensão da era da colaboração. "EU-repórter"? Jornalistas estão aí para quê? E não me entendam mal: não estou aqui marcando território, qual um cão que urina postes delimitando seu espaço. Há lugar para todos.


O mundo não é perfeito, como prega a Wolksvagem. Desacreditei de fantasias aos quatro anos, quando vi coelhos de verdade e concluí: um bicho daqueles não tinha como carregar ovos de chocolate para lá e para cá. Notícia é assim também. Parece lindo o discurso do "faça você mesmo", mas não se produz assim. Isso é fábula. O leitor é  só coelho da história. O jornalista, que enfrenta as máquinas e os desaventos da profissão, fica no backstage, tal qual os operarários nas fábricas.

Atrás do discurso do jornalismo colaborativo habitam os reais intuitos. Da parte dos empresários de comunicação, produzir o maior número de notícias pelo menor custo e, com o menor quadro funcional possível. De outro, a população, que vê nestes canais um espaço de democracia, de gritar, de ter a voz que não tem perante a sociedade. 

Não acho que transformar a sociedade em fornecedora de informação seja a saída, tampouco o extremo radical, mas é absurdo o que temos visto. A publicação da foto de uma Kombi em chamas, supostamente em um incêndio em São Bruno, Califórnia, é um exemplo disto.


Seria uma ótima colaboração do leitor, não fosse a foto em questão extraída do seriado Lost! Sim, era a Kombi da Iniciativa Dharma! Foi apurado antes de ser publicado? Uma dose de cultura pop e a Kombi não estria ali. Créditos da observação ao site www.contraditorium.com.

Dia desses, parei para assistir ao Jornal Nacional. Era o primeiro dia do tal JN No Ar. Um jatinho que está passeando o país. Bem melhor que o motor home de Bial anos atrás. Ernesto Paglia, dessa vez, viaja patrociado pelo Bradesco, com direito logo do banco no jato. Até outro dia jornalista não anunciava produtos, não era garoto propaganda. A cada dia a credibilidade vem sendo posta de lado e vemos mais e mais profissionais nesta. 
 
O âncora estava numa fortaleza no Amapá, parecendo estar na cobertura de um show de axé. Gritaria, telões, povo inflamado e por pouco não entra a Ivete Sangalo cantando um tema local. Lembrei que Bonner é publicitário por formação, jornalista há décadas, e deixou a identidade vendedora gritar alto demais. O que tenho visto do tal projeto são matérias sem relavância que não cumprem o papel de "revelar o Brasil", como afirmam.

A Globo mesmo tenta nos convencer a todo modo de que a modinha agora é o jornalismo despojado. Ok, tem espaço para tudo. Mas Glenda Koslowsky se estragando como apresentadora do novo circo do Boninho, valha-me Deus! Deixassem isto pro Leifert e seu esporte com cara de stand up comedy. Pouco me espantaria vê-lo estrelando um show desses. 


Devemos despertar para um fazer jornalístico verdadeiro. Colaborar siginifica ajudar, fazer sua parte, mas jornalistas devem fechar a matéria, apurar o que chega do leitor, checar outros fontes, educar o olhar. Aliás, só para não passar sem mais uma provocação, convido ao pensamento: há jornalistas por trás de tudo que se publica ou aos veículos?

Basta alertar que "as opinições emitidas são de inteira responsabilidade de seus autores".? Sobre esta máscara, veículos se esquivam da responsabilidade, jogam para segundo plano o importante papel do boa apuração jornalística e ajudam a baixar o nível do jornalismo para  uma superficialidade bestial.

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