quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Calor, Coca-Cola e falta de educação. Três pilares numa oração individualista.

A cidade que vemos é a cidade que fazemos.

Hoje o dia amanheceu quente. É um daqueles que me fazem suar litros antes das nove da manhã. Quem me conhece, sabe do que estou falando. E suar sobre um escaldante maçarico solar me irrita bastante.

Entrei no ônibus, a caminho do trabalho, e sentei-me ao lado de uma moça, aparentando seus vinte e poucos anos. Motorista lento, vapor de asfalto prá todo lado e engarrafamento completam a cena. Tudo era nitroglicerina pura, prestes a explodir.

No trajeto, a cada igreja que passávamos, a moça ao meu lado traçava sobre o corpo o sinal da cruz. E não daquela cruz estranha e de forma corrida, como fazem os jogadores de futebol ao final de uma oração, aos berros e com pausa forte entre as palavras. Era aquele sinal da cruz bem feito, bem traçado e "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"... Eu quase podia ouvir a voz do Papa quando ela começava.

A moça tomava uma Coca-Cola, pois o calor infernal do começo do dia bem que pedia. Viciados neste refrigerante, como meu amigo Janilson e eu, entendem bem o poder de um gole. O problema é o final do ato. Uma lata arremessada na rua, displicentemente, através da janela do ônibus, no meio da calçada. Alguns diriam: "Tá, mas e aí?" ou "Menos, Sidonio" ou até mesmo "Ih, virou ecochato, relaxa". Mas meu ponto de vista vai além disto.

Reparem. Tratava-se de uma pessoa adulta, aparentemente bem escolarizada e, conforme denunciava seu gesto de fé, era religiosa. Isto a obriga a ser perfeita? Não! Mas não a desobriga a ser educada e pensar na coletividade. Como profissional de comunicação, pensei extamente em que estamos errando. Em que público alvo esta pessoa se enquadra que não está sendo atingida e mobilizada pelas tantas campanhas que diariamente tomam espaço nos meios de comunicação? Ou pior: ela está recebendo a informação mas não está sendo impelida a modificar seus atos.

As pessoas insistem em desprezar os pequenos atos de respeito ao próximo e à coletividade. Eu já tratei deste assunto aqui no Outras Palavras. Se você não leu, clique aqui.

E o que dizer da religiosidade, então? Vejo tantos pastores, padres e sei lá mais que líderes sendo tão influentes sobre seu rebanho para assuntos políticos. Então, por qual motivo não vemos estes mesmos líderes se esforçando para incutir em seus fiéis conceitos de civilidade, educação ou até mesmo um projeto de limpeza urbana, reciclagem ou reaproveitamento de materiais?

Temo pela individualidade que se prega por aí. Pelos gestos mesquinhos e mal educados e pelos argumentos superficiais para não fazer por si só a mudança que se espera ver no outro. Fico inconformado, e me sinto no direito. Da minha parte, continuarei carregando na mochila, nos bolsos ou na mão cada descarte de lixo que eu produzir na rua para dar destino correto a ele. Incorformar-me me leva a dar e resposta assim: insistindo em fazer minha parte.

O verão está chegando e já deu sinais de como será: muito quente e com chuvas torenciais. Os alagamentos apareceram às centenas e eu farei questão de me lembrar desta moça e dos seus pares sociais. São os que fazem o sinal do Pai Nosso, mas rezam: "Em nome de MIM, da minha falta de educação e da descrença num mundo melhor. Amém". 

ADENDO: um dia que começa assim não pode terminar bem. Entrar na fila do ônibus, esperar um tempão em pé e após entrar na condução perceber: Charles Henriquepédia, do Pânico na TV, à paisana, entrar no mesmo coletivo sem nem ligar prá fila. Comédia que só ele. Sentou-se um banco após o meu, sacou um celular e ficou um tempão conversando. Aos berros! Bem daquele jeitão dele mesmo.

Sair da aula às dez da noite exausto, chegar em casa debaixo de chuva, entrar no prédio e perceber que falta energia elétrica. Tomar banho frio e quando acabar, a luz voltar. 


Aí eu pergunto? Tá certo isso? Nessas horas agradeço a Deus pelo meu senso de humor. Mas confesso: não estou achando tanta graça nas coisas como antes. E chega por hoje... OU melhor, chega prá sempre. "Dias melhores prá sempre"...

4 comentários:

  1. Apoiado... Que vergonha moça! Religiosa ou não, jogar latinha na rua não são coisas de ecochatos, mas de civilizados!

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  2. Rumo à barbárei, meu caro, rumo à barbárie...

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  3. Morte a moça religiosa..

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  4. Adorei o texto!!!!
    Uma delícia.
    Parabéns,
    Bette Romero Burlamaqui

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