quarta-feira, 23 de março de 2011

Olha...


Olha ao teu redor agora. Vê! Há um calor que congela, uma multidão que isola, companhia que te faz sozinho e a frieza destes sentimentos dolorosos. Olha! Ainda que a tua coragem de ter medo vença, que perca o medo de ser forte. Tenta desta vez o que outrora desististe. Insiste. Vaga e retorna, pois sempre tens um porto, visto que nunca tivestes um lar. Desta forma não te arrependas, não te prendas pra não ter que voltar. Olha pra dentro de si agora. Obedece ao contrário, volta quando disserem para partir e parte quando ouvir um pedido: -“Fica!”.

Sê forte, contraria, mas não faça o que não te faz ser quem você quer ou ser e quem você é. Sofre de amor, ama odiar, odeia e chora quando pensar em amar. Mas não leve à lógica essa vontade besta nem estes versos incertos, de sentido reverso que querem confundir sua vontade louca de explicar. Faça como os loucos que em sua suprema sanidade permitem-se à inconseqüência de se esquecer quem se “É”. Diante da vontade latente e deste mundo ausente, que te consome, te sufoca, e na fome alimente os seus desejos e sonhos de sorrisos e lágrimas, de choro contente, sua vida, seu lar! Quão choro de crianças, suas lutas, suas danças, seu sorriso manhoso, de colo desejoso, recobra a inocência na malícia de suas travessuras puras e gostosas.

Ah, que bom seria se ao menos no seu quarto, na intimidade, em seu espaço, tivesse coragem de cantar, sozinho e louco. De rir de si mesmo. Nem que só um pouco... Extravasar a delícia de ser só mais alguém que se acha, que se encontra, se entrega e se encanta, como um louco poeta, que escreve loucuras e não quer explicar, que contradiz, que copia, que é original, que recria...

Olha à tua volta. Esta viagem pode durar um segundo dos ponteiros e este tempo pequeno, que passa num lampejo, no longo tempo que dura um desejo, pode trazer-te uma grande mudança. Pode trazer de um instante a lembrança e o devaneio de deixar tudo... O estranho e o escuro, e buscar outro canto, mais calor, acalanto! Olha à tua volta. Quando absorver esta realidade verá que ela não existe, foi criada! Só tua vida é alterada e alterável, moldada. 

Por sua vontade, por sua fome, por um amor que hoje chega e amanhã some, deixando rastros a apagar, cartas por rasgar, planos a desfazer e nova hora pra conquistar. Escreve sua poesia! Compõe tua música, tua melodia, mas uma prece, um pedido, escuta deste estranho amigo... Olha à tua volta! Descubra a riqueza do nada e a pobreza farta que a cor dos olhos, da verdade pura e a certeza, podem revelar...
Ah! Se olhasse a tua volta...

NOTA: Texto de minha autoria, escrito em Manaus - AM, em Julho de 2005, onde estive a trabalho por vinte dias. Postado pela primeira vez no meu extinto canal Live Journal em 02/12/2005.

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