sábado, 13 de agosto de 2011

Fisioterapeuta que hasteou a bandeira do Brasil na abertura dos Jogos Mundiais Militares, no Rio de Janeiro, é a primeira indígena a integrar as Forças Armadas no país.

Reportagem especial para o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 2ª Região (Crefito-2).  O texto foi veiculado no site da Autarquia Federal e enviado aos profissionais e demais contatos em boletim eletrônico. Entrevista / Texto: Sidonio Macedo
Sílvia Nobre Waiãpi hateando a bandeira nacional. (Reprodução da TV)

Sílvia Nobre Waiãpi é fisioterapeuta e militar. Também formada em Artes, cursa atualmente a Pós-Graduação em Gênero e Sexualidade pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS/UERJ) e em Saúde Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF). No último dia 16 de julho, ela teve a honra de hastear o pavilhão nacional na abertura dos 5º Jogos Mundiais Militares, maior evento esportivo militar já sediado no país, com cerca seis mil atletas e dois mil delegados de mais de 100 países. Vinte modalidades esportivas foram disputadas.

Mais de 30 mil pessoas presenciaram, ao vivo, durante a cerimônia de abertura do evento, realizada no Estádio João Havelange, o Engenhão, no subúrbio carioca, o momento em que Sílvia elevou a bandeira com as cores do Brasil. Entre as várias autoridades civis e militares presentes, a Presidente Dilma Rousseff fez um breve discurso e saudou aos atletas: “Declaro aberta a quinta edição dos Jogos Mundiais Militares do Conselho Internacional do Esporte Militar. Desejo boa sorte a todos”,

A história desta fisioterapeuta é marcada por muitas lutas e dificuldades superadas. Primeira mulher militar das Forças Armadas de sangue indígena do país, segundo informação do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (INBRAPI), Sílvia Nobre nasceu na aldeia Waiãpi, localizada no Parque Indígena do Tumucumaque, no estado do Amapá.

Aos quatro anos, enquanto brincava, caiu sobre um pedaço de madeira que perfurou seu abdômen e provocou uma grave infecção. Foi levada à capital do estado, Macapá, para internação por causa das complicações decorrentes deste acidente. Uma das sequelas sofridas foi a perda parcial do movimento da perna direita, que foi reabilitada com fisioterapia durante o longo período de recuperação em que permaneceu no hospital.

Seu nome indígena é Kayne, que significa “forte”. Ela relata como se deu a mudança: “Fui batizada com o nome ‘Sílvia’ após o acidente que me levou ao hospital, aos quatro anos. Para me internar foi exigido um documento oficial. Naquela época, anterior à Constituição de 1988, era obrigatório que os índios recebessem nomes aportuguesados, pois a nomenclatura indígena era considerada estrangeirismo. Não podíamos ter um nome considerado ‘pagão’. Somente após a promulgação da Carta Magna, no final dos anos 80, os indígenas brasileiros passaram a ter o direito a ter registros civis com nomes em sua língua nativa, respeitando a cultura e a identidade de cada etnia”.

Sílvia foi mãe aos treze anos, o que é normal na sua cultura. Deixou a tribo e chegou ao Rio de Janeiro, sozinha, aos quatorze anos de idade. Foi moradora de rua e contou com o auxílio de artistas para cursar sua primeira graduação, em Artes. “Vim sozinha. Não conhecia ninguém e dormi nas ruas. Eu tinha uma pedra, que acreditava que era sagrada, e a vendi para ter dinheiro para comprar comida”.

A oportunidade de estudar fisioterapia veio quando, já formada em Artes, passou a praticar atletismo, se apaixonou pelo esporte e virou atleta. Nesta época recebeu uma bolsa de estudos integral para cursar qualquer cadeira que escolhesse. A decisão profissional se deu de forma consciente. Na sua opção por tornar-se fisioterapeuta, pesaram tanto a questão da prática esportiva quanto a da reabilitação, remontando ao acidente sofrido na infância. Ela comenta: “Fazer fisioterapia significava não precisar mais sacrificar nossas crianças”.

Foi também por meio do esporte que ela teve o primeiro contato com os militares. Especializada em Fisioterapia Esportiva, Sílvia Nobre trabalhou por mais de seis anos na área. Atuou junto ao Corpo de Fuzileiros Naval da Marinha, com os corredores do Comando Geral no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes, na Penha. Este contato despertou seu interesse pela carreira militar.

A indígena prestou concursos para a área de fisioterapia em 2009 e foi reprovada. Persistente, tentou novamente no ano seguinte e foi aprovada tanto no processo seletivo da Marinha quanto no do Exército, concorrendo com aproximadamente cinco mil candidatos. Optou por ingressar no Exército, onde passou por uma difícil seleção, que contava com prova oral, análise de títulos e currículo, além do teste físico. Cumpriu a primeira fase do curso preparatório, que durou trinta dias, no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva - CPOR/RJ, em Bonsucesso, bairro carioca da Zona da Leopoldina.

Em três de fevereiro deste ano, Sílvia Nobre formou-se Aspirante a Oficial do Exército. Na formatura de encerramento do Estágio de Serviço Técnico (EST), estiveram presentes autoridades civis e militares além dos familiares dos aspirantes. Os filhos de Sílvia Nobre prestigiaram a conquista da mãe, que recebeu a espada, símbolo de honra do Oficial Militar. O evento contou ainda com a presença de Eliane Potiguara, Embaixadora da Paz (Genebra), membro da diretoria do Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI) e presidente da Rede GRUMIN de Mulheres indígenas, da qual a fisioterapeuta e militar é conselheira.

Após a formatura, a já Aspirante a Oficial deu início à segunda fase do estágio no Hospital Central do Exército (HCE), no bairro de Benfica, onde está servindo atualmente. Em agosto, com a conclusão desta etapa, será promovida ao primeiro posto de Oficial, como 2º Tenente. "No HCE somos generalistas, mas a área de fisioterapia respiratória em terapia intensiva, em que atuo, é a que possui maior carência de profissionais”, esclarece a fisioterapeuta sobre seu trabalho na unidade militar de saúde.

Sílvia Nobre Waiãpi é mãe de três filhos. A mais velha, Ydrish Tanzkaya, nome que significa “flor nascida da terra”, tem 22 anos e nasceu quando Sílvia ainda vivia na tribo. Ela e é estudante de farmácia. Já Tamudjim, “homem forte como um ferro”, tem vinte anos e estuda Biomedicina. A caçula, Yohana Tanzkaya, “mensageira nascida na terra”, tem dezoito anos e estuda relações internacionais.

Aos trinta e cinco anos, Sílvia já avó da pequena Mayh’ki Tanzkaya. A menina tem quatro anos e é filha de sua primogênita, Ydrish. Mayh´ki (nome indígena que significa ou “luz do mundo”.) nasceu com paralisia cerebral. A própria Sílvia fez o tratamento fisioterápico da menina. A pequena descendente da etnia waiãpi ficou totalmente recuperada: “Hoje ela é uma criança ativa, que já dá sinais de paixão pelo esporte e adora fazer atividades físicas”, relata a jovem avó. Destino ou coincidência, seu propósito ao escolher estudar fisioterapia, anos antes, ganhou mais um capítulo, cheio de sentido, com esta oportunidade de cuidar e reabilitar sua neta.

A adoção do nome da sua etnia como sobrenome foi um direito adquirido pelos indígenas brasileiros recentemente. “Somente após a Convenção 169 sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprovada em 1989 e ratificada pelo país via Decreto Legislativo nº 143, entrando em vigor apenas 2003, os indígenas puderam passar a usar o nome da tribo ou etnia como sobrenome”, esclarece.

A militar lembra que o seu grande sonho sempre foi hastear a bandeira nacional: “No colégio onde estudei no Amapá, apenas as crianças brancas e não indígenas tinham esse direito.” E completa: “Onde quer que eu vá, esta bandeira será honrada”!

Sílvia Nobre Waiãpi, ou Kaine, a “forte”, marca sua história com a garra da mulher indígena, que defende sua etnia e exerce com dignidade a fisioterapia na carreira militar. “Tenho o sangue verde-oliva”, declara a waiãpi, em alusão à cor de sua farda. Ela defende a participação de indígenas em assuntos de Relações Internacionais, visando à soberania do Brasil no âmbito de segurança e proteção de fronteiras, para o fortalecimento da expressão do poder nacional entre os povos indígenas.
 
 
Agradecimentos:

- Aspirante a Oficial do Exército Sílvia Nobre Waiãpi.
- Comunicação Social do Comando Militar do Leste – CML
- Comunicação Social do Hospital Central do Exército – HCE
- 1º Tenente Ana Ferraz - Oficial de Comunicação Social / Relações

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