quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rio+20: refletindo sem precisar mostrar a bunda

Alguém pode me explicar por que ficar pelado em um protesto poderia fazer algo pela democracia? Não acho nada democrático impor aos demais cidadãos sua vontade de se expressar, cerceando-lhes o direito de ir e vir, num rompante de reviver, nus, um dia de Jardim do Éden.

Em tempos de Rio+20, fadada ao fracasso, "os caras" lá dentro da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD) sequer sabem que tudo isto se passa aqui do lado de fora. Virou moda, notícia repetida, mais do mesmo... Fazer protesto, nestes dias, virou sinônimo de ficar pelado. Pela segunda vez em uma semana fomos bombardeados por imagens dantescas.

E concluo, neste momento, que gente esculpida, sarada e dentro dos padrões estéticos de beleza não se envolvem em movimentos deste tipo. A menos que estejam bem vestidas e seja com o claro intuito de se exibir. Em resumo: as "gostosonas" e os "caras padrão Globo" não são engajados em nudismo - não deste tipo -, são pouco corajosos ou tem mais vergonha... Prefiro crer que só ficam pelados para transar ou ganhar um cachê posando para fotos.

Do outro lado, há uma super top model brasileira que empresta sua imagem - vestida, claro - para várias ações em defesa do meio ambiente. Preciso dizer quem é? Não. Ela faz para mostrar, não para se mostrar. E faz diferença.

Fotógrafo dá uma boa manjada na bunda da manifestante.
Foto: Agência O Globo
Podem chorar...

Podem gritar ou vociferar também. Na prática, vocês, povo pelado, prejudicaram o outro lado do mesmo povo - o que está do lado vestido. Os protestos deveriam ficar no caminho dos líderes mundiais, bloquear-lhes o caminho, mostrar-lhes indignação. Creiam: das janelas de carros, ônibus e prédios, cidadãos comuns, em sua maioria, vêem o oba-oba das passeatas com muita raiva e o feitiço se vira contra vocês mesmos, feiticeiros sem túnica nem ceroulas.

Manifestantes-pelados-anti-capitalistas só estão servindo para perpetuar um capitalismo noticioso, preencher as laudas dos jornais, páginas de sites, etc. E os jornalistas que cobrem tais pautas, com raras exceções, querem mais é voltar aos seus computadores e escrever sobre nádegas brancas que viram naquela manhã de balbúrdia. Depois, retornam para casa e tentam esquecer, com uma dose de álcool e algum entorpecente televisivo. Até a Hebe vale - tratar um trauma com ou ainda maior. Os políticos, líderes mundiais e demais "picas das galáxias" sequer tomaram conhecimento de grande parte - ou toda - do que foi feito.

Nada muda quando vocês tiram a roupa. As pessoas não vão se lembrar das bundas caídas, paus moles e xoxotas defloradas que viram no meio daquela manifestação. E, de tão chocante, se lembrarão que isto ocorreu, mas não do que o corpo que existia ao redor daqueles órgãos sexuais reivindicava. É o meio sobrepondo-se à mensagem. Da próxima vez, tatuar nas partes íntimas uma frase de impacto pró-naturalista talvez renda mais alguns parágrafos de notícia... Na Revista Sexy... Talvez...

Fica tudo como tem estado desde a ECO-92.

Não estou afirmando, contudo, que marchar em prol de um ideal seja causa ilícita. Pelo contrário. Só me entristece saber que em nome de uma causa justa, pessoas se prestem ao papel de prejudicar o direito de ir e vir das outras. A liberdade de se expressar entrando em conflito direto com a liberdade de ir e vir.

Espanta-me que em meio às notícias sobre protestos na semana de realização da Rio+2O, o grupo que não ficou pelado tenha sido o dos índios.

Desacredito de tudo. Dos resultados da Conferência, da mudança do quadro de degradação que aí está, da efetiva necessidade de descumprir leis e colocar órgãos sexuais à mostra e parar a cidade em prol de qualquer que seja a causa.

O tempo gasto ali, se investido em estudar projetos de Lei e ações políticas deste país, talvez a coisa toda tomasse outro rumo. Por enquanto vamos todos, pelados, líderes engravatados ou de turbante, para o mesmo futuro: um mundo degradado em em conflito por comida e água.

Por roupas, nem tanto...

Único índio descalço na foto (5º, da esq. para a dir.)
traja costume surfista completo: bermudão e camiseta.

Foto: Agência O Globo

Estatística

Estamos cercados e de nada adianta tentarmos fugir.
Estamos cercados por números de todos os lados.

Eles nos rotulam, nos enfileiram e nos classificam.
Eles dizem quem somos e porque somos.
Eles estão sempre lá e não podemos mudar.

Tem um número no dia em que nascemos.
Tem outro para o mês e mais um para o ano.
Numeraram-nos ao nascer para não pararmos no peito de outra mãe.

Número na certidão de nascimento...
Número na primeira identidade: não existimos antes de tê-lo?
Tem numeração de CPF, no Certificado de Reservista...

Número naquele documento caro que tiramos para viajar.
Número no próprio vôo que nos leva para outro lugar.
Número... Cansei de ser numeral e estatística.

Cada um dos números representava a quantidade de ângulos que o mesmo possui.
O zero não tem nenhum ângulo, razão pela qual é representado por uma circunferência.
(Fonte:
Teia Poruguesa)